Declinio social ou simplesmente raça humana?

Como explicar a pedofilia? Cada vez mais essa palavra aparece nas bocas escandalizadas da sociedade. Não é para menos. A Igreja Católica teve que se haver com uma série explosiva de denúncias de abusos sexuais perpetrados no interior sagrado de suas paróquias. Padres estupravam pré-adolescentes. Abusavam dos jovens corpos e da confiança depositada em sua suposta autoridade moral e religiosa. O caso chegou até o Vaticano, que teve que prestar contas à sociedade sobre o comportamento desviante de alguns de seus padres.

    A algum tempo no Brasil, os pais que levam seus filhos ao médico têm que afastar um fantasma repleto de conotações sexuais: o caso de Eugenio Chipkevitch, um médico de São Paulo que sedava e mantinha relações íntimas com seus jovens pacientes, que, ainda por cima, eram os atores involuntários de filmes amadores registrados pela câmera do profissional.





A história toda tem elementos suficientes para despertar a repulsa de qualquer um. Chipkevitch era uma figura coroada da hebiatria, especialidade que designa os médicos que tratam de adolescentes. Celebrado nos círculos científicos e na mídia, o médico era considerado uma autoridade no tratamento de jovens. Tudo isso ruiu desde que dezenas de fitas com cenas de abusos perpetrados em seu consultório foram encontradas.

    O escândalo de São Paulo foi suficientemente grande para alterar algumas relações entre médicos e pacientes. Desde que as notícias sobre o “médico pedófilo” começaram a aparecer, o hebiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo Maurício de Souza Lima resolveu chamar os pais de seus pacientes para uma conversa esclarecedora. Ressabiados, mães e pais apenas se tranqüilizavam depois de ouvir o médico explicar os procedimentos da hebiatria – e que nunca um profissional iria se trancar no consultório, sedar um jovem e abusar sexualmente dele.

    Não um adulto equilibrado, claro. Mas, e uma pessoa com problemas? Que tipo de pessoa se excita com crianças? Por que as crianças atraem sexualmente uma parcela considerável da humanidade? É o que esta matéria pretende responder.

    A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a pedofilia como a ocorrência de práticas sexuais entre um indivíduo maior de 16 anos com uma criança na pré-puberdade (13 anos ou menos). “Pedofilia é um conceito de doença que abarca uma variedade de formas de abuso sexual de menores, desde homossexuais que procuram meninos na rua até parentes que mantêm relações sexuais com menores dentro de seus lares”, afirma Jim Hopper, pesquisador do Trauma Center da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, no Estado americano de Massachusetts.

    Embora a OMS não defina a pedofilia como uma doença, médicos e psicanalistas divergem na forma de classificação e nas estratégias para combater o problema. O conceito é elástico o bastante para explicar desde práticas sádicas com crianças até a contemplação de fotos sensuais de meninas de 15 anos.

    A psicanálise define a pedofilia como uma perversão sexual. Não se trata, propriamente, de uma doença, mas de uma parafilia: um distúrbio psíquico que se caracteriza pela obsessão por práticas sexuais não aceitas pela sociedade, como o sadomasoquismo e o exibicionismo. “A criança nunca é parceira na relação de um pedófilo, mas seu objeto, pois é um ser indefeso, dominado sadicamente”, afirma o psicanalista carioca Joel Birman, que atende em seu consultório antigas vítimas das investidas de adultos.

    O psiquiatra francês, especializado em pedófilos, Patrick Dunaigre defende a existência de dois tipos de pedofilia: a de situação e a preferencial. A primeira talvez seja o tipo mais difícil de detectar. Alguns adultos, principalmente homens, atacam crianças sem, no entanto, se sentirem excitados com elas. Na maior parte dos casos são atos isolados e que, muitas vezes, não irão se repetir no futuro. Nem sempre o ataque envolve relações sexuais mais diretas, como penetração. A agressão pode ser uma carícia disfarçada de inocente cócega ou mesmo alguns beijos calorosos em partes mais íntimas do corpo infantil.

    O perigo reside mesmo na pedofilia preferencial. Ocorre quando o agressor deliberadamente escolhe bebês e crianças na pré-puberdade – antes dos 13 anos – como obscuros objetos para sua satisfação sexual. Essa pedofilia é cometida de várias formas. Na maior parte dos casos – e os episódios da Igreja e do hebiatra paulista o comprovam – é praticada por um adulto que adquire a confiança da vítima. De acordo com o psicólogo David L. Burton, especialista em agressão infantil da Universidade de Michigan e membro do Conselho Diretivo da Association for the Treatment of Sexual Abuses (Associação Para o Tratamento de Abusos Sexuais), nos Estados Unidos, cerca de 80% dos casos de abuso sexual de crianças ocorrem na intimidade do lar: pais, tios e padrastos são os principais agressores.

    O noticiário da TV alardeia o escândalo dos padres pedófilos e do hebiatra brasileiro, mas o grosso dos casos acontece mesmo dentro de casa. “Há um pacto de silêncio”, denuncia o psicólogo Antônio Augusto Pinto Júnior, coordenador do Centro de Referência à Infância e à Adolescência de Guaratinguetá, município do interior paulista. Antônio Augusto, que atende crianças que sofreram abuso sexual dentro de casa, relata uma espiral de incestos digna das peças do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, que escandalizou o público dos teatros com enredos em que pais iniciavam sexualmente as filhas e mães deitavam com o caçula.

    Um dos casos atendidos pelo psicólogo é o de uma menina de 13 anos, abusada pelo avô. Detalhe: suspeita-se que o avô, na verdade, seja pai da menina, pois anteriormente ele mantivera relações sexuais com a mãe dela – e filha dele. Episódios aterradores (e comuns) como este são pouco divulgados. “A mãe geralmente é cúmplice do abuso”, afirma Antônio Augusto.

    Por medo da reação da sociedade, grande parte dos casos de pedofilia familiar não vêm à tona. Uma estatística levantada pelo Laboratório de Estudos da Criança (Lacri) da Universidade de São Paulo (USP), mostra a amplitude do problema. O relatório registrou, durante 2001, 1 723 casos de violência sexual contra menores no âmbito doméstico. Intitulado “A Ponta do Iceberg”, o documento apenas inventaria aqueles episódios que chegaram às instâncias oficiais, como varas de família. “Os casos são muito mais numerosos do que nós sabemos”, diz a coordenadora do Lacri, a professora de Psicologia da USP Maria Amélia Azevedo.

    Se na intimidade do lar ocorrem violências como essas, o que dizer quando o pedófilo ganha as ruas?

    Países como Brasil, República Checa, Sri Lanka e Filipinas faturam milhões com o turismo sexual todos os anos. É bastante comum ver, nas ensolaradas praias do Nordeste brasileiro, parrudos europeus desfilando com meninas e meninos ainda imaturos para qualquer tipo de relação mais íntima.

    Em Praga, capital da República Checa, uma vasta rede de bordéis masculinos e motéis serve de ponto de encontro para pedófilos do continente, em sua maioria alemães que atravessam à noite as fronteiras dos dois países para desfrutarem momentos de deleite com meninos de 12 anos. Um dos bordéis mais famosos é o Pinóquio. (A ironia cruel desse nome ligado ao universo infantil só poderia ser obra da cidade natal do escritor Franz Kafka.) Ali, durante 24 horas por dia, meninos matam o tempo entre um encontro e outro perdendo dinheiro nas máquinas de fliperama. Pagos para serem sodomizados, os pequenos prostitutos faturam em dois encontros o equivalente ao salário mensal de um trabalhador de 8 horas diárias, como apurou Fabiano Golgo, jornalista brasileiro radicado em Praga.

    Em países asiáticos, meninas de 8 anos têm sua virgindade leiloada em muquifos freqüentados por pedófilos das mais variadas procedências – a maioria, profissionais bem-sucedidos, casados e com filhos. No Sri Lanka, por exemplo, é possível comprar os serviços de meninos pré-adolescentes. Um usuário famoso da prostituição infantil nesse país foi o escritor Arthur C. Clarke, autor do clássico de ficção científica 2001: Uma Odisséia no Espaço, levado às telas pelo diretor Stanley Kubrick em 1968.

    Tais violências contra crianças fizeram a Unesco – o órgão da ONU que lida com a infância e a adolescência – realizar, a partir de 1999, uma série de encontros e investigações com psicólogos, médicos e advogados dos países onde o comércio sexual de menores é uma realidade. É uma batalha árdua. No Brasil, desde 2000 a Secretaria Nacional de Assistência Social, ligada ao Ministério da Previdência, mantém o Projeto Sentinela, inicialmente implantado no Norte e no Nordeste, onde a existência da prostituição infantil muitas vezes é pouco considerada pelas autoridades locais, que fazem vista grossa para o problema e preferem contar os cifrões do incremento do turismo sexual na receita da região.

    Mas, afinal, quem é o pedófilo? Observe aquele bom rapaz da vizinhança. Simpático, cordato, prestativo – principalmente com a meninada. Pelo que as comadres comentam, ele não tem uma namorada ou qualquer outro tipo de envolvimento amoroso. Adora ficar perto das crianças, participando (ou promovendo) das brincadeiras, conversando e escutando-as.

    Observe, também, aquele instrutor de escoteiros, o professor de educação física, o líder religioso do bairro, o profissional que lida diretamente com a saúde da molecada. Gente satisfeita em ouvir e aconselhar crianças, zelar por sua saúde física e mental.

    Gente legal, não? Na maior parte dos casos a resposta é positiva – são apenas pessoas que gostam de ajudar as crianças e cuja única satisfação é saber que as estão orientando para o futuro. Mas uma porcentagem dessas pessoas está ali, no playground ou no ginásio, por motivos bem mais escusos. Eis um pedófilo em ação.

    Um pedófilo é uma pessoa de 16 anos, ou mais, que se sente atraída sexualmente por crianças e pré-adolescentes. Apresenta, muitas vezes, uma sexualidade pouco desenvolvida e teme a resistência de um parceiro em iguais condições. Sexualmente inibido, o pedófilo escolhe como parceiro uma pessoa vulnerável. “Usar uma criança é ter uma ilusão de potência”, diz o psicanalista Joel Birman. Em cerca de 25% dos casos, o pedófilo de hoje é a criança molestada de ontem.

    Mas todos que mantêm relações com crianças ou acessam sites na internet para contemplá-las nuas são pedófilos? A resposta varia. Em muitos casos, como o parente que abusa de uma criança dentro de casa, trata-se de mais um caso de violência contra a criança, sem que necessariamente o agressor seja pedófilo. Pode ser uma pessoa adulta que deseja humilhar uma mais fraca. Muitos adultos têm fantasias com crianças, mas nunca chegam a praticar qualquer ato de conotação sexual. Esses, segundo a psicanálise, sofrem de algum tipo de neurose, pois apenas criam situações imaginárias em que menores são o prato principal. Já o sujeito que se excita com imagens infantis em revistas ou na web pode ser só um voyeur: seu prazer reside apenas em contemplar a nudez, as formas de um corpo ainda em formação.

    Glenn Wilson, professor de Psicologia na Universidade de Londres, Inglaterra, realizou extensa pesquisa para definir o padrão de um pedófilo. De acordo com ele, a maioria dos pedófilos tem entre 30 e 45 anos e é do sexo masculino (95%). Desses, 71% gostam de meninos, embora não sejam, em sua maioria, homossexuais. Preferem os garotos de 12 a 15 anos. Uma pequena parcela deles costuma escolher crianças menores que 5 anos.

    Os dois aspectos de maior atração são a inocência e a boa aparência das crianças. A maior dessas qualidades físicas é a ausência de pêlos pubianos. É por isso que o “teto” dos pedófilos costuma ser a idade de 15 anos – quando os primeiros pêlos começam a aparecer, a voz engrossa (no caso dos meninos, claro), sinais de independência se manifestam na personalidade.

    As conseqüências nas crianças molestadas são as piores possíveis. O abuso sexual de menores provoca danos na estrutura e nas funções do cérebro, incluindo aquelas que desempenham papel importante na cognição, na memória e nas emoções. Depressão, propensão a abuso de álcool e drogas são algumas das seqüelas observadas pelos pesquisadores. A maioria percebe que, mais crescidas, as crianças costumam apresentar problemas ligados à sexualidade – de inibição e pavor ao sexo a até mesmo comportamentos que podem se transformar em pedofilia. O círculo vicioso, então, se completa – e deixa atrás de si um rastro de frustração, raiva e medo em muitas famílias.

    A batalha para evitar que um indivíduo incorra em novos ataques a crianças costuma ser difícil, lenta e apresenta êxitos duvidosos. Uma guerra que precisa ser travada palmo a palmo, de forma incessante. Embora a Associação Para o Tratamento de Abusos Sexuais, nos Estados Unidos, contabilize cerca de 70% de êxito na terapia, as medidas mais comuns – acompanhamento psicológico, antidepressivos e drogas que diminuem a libido – só surtem algum efeito se forem constantemente administradas.

    Mas droga alguma vai livrar a sociedade dessa estranha predileção que acomete muitas pessoas. Várias disciplinas procuram explicar o que leva adultos a encontrar satisfação sexual com menores. A história do erotismo infantil está ligada à trajetória da humanidade. Evidências culturais, biológicas e psicológicas nos ajudam a entender o problema. Por exemplo: em aproximadamente 450 culturas tradicionais, a idade ideal para contrair matrimônio está entre 12 e 15 anos. A beleza juvenil, ainda em desenvolvimento, seria o maior atrativo para os machos.

    A biologia explica que, quanto mais jovem uma mulher, maiores são as chances de ocorrer uma fecundação bem-sucedida. Com o passar dos anos, a produção de espermatozóides diminui e o homem procura mulheres que oferecem maior possibilidade de uma boa fecundação – e essas mulheres são as mais jovens. Outro fator nessa equação: a beleza imatura, a pele suave, as maçãs do rosto ainda rosadas e o nariz pequeno evocam a infância e despertam o instinto de proteção do adulto.

    Proteção e dominação constituem os pilares básicos da pedofilia. À medida que amadurecem, homens procuram pessoas mais jovens por causa de inseguranças psicológicas (inclusive em relação ao tamanho e ao desempenho do pênis). O sexo com menores seria uma forma – cada vez mais debatida pela sociedade – de um adulto afirmar sua segurança, ainda que precária.

    É tarefa difícil lidar com o mundo da pedofilia. O certo é que a inocência infantil deve ser preservada. Assim como um futuro livre de traumas.
Texto:  Leandro Sarmatz

Nenhum comentário:

Postar um comentário